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O que é a arte contemporânea?

Nunca uma pergunta ressoou tanto entre os mais variados teóricos e críticos. October, a célebre revista de arte do MIT, dedicou um número ao tema, publicado no outono de 2009, em que reunia um time formado pelos mais diferentes e renomados curadores do mundo. Havia apenas um consenso: a dificuldade em definir isso a que se chama arte contemporânea, por causa de tudo o que implica pensar a vagueza do adjetivo para nomear o período: “contemporâneo”. A multiplicidade de fatores econômicos, políticos, históricos, culturais e evidentemente estéticos leva à impossibilidade de uma definição categórica do que é a arte em nossos dias.

O filósofo Arthur C. Danto, por exemplo, tem como ponto de partida a impossibilidade de estabelecer critérios estéticos objetivos para tratar das artes plásticas contemporâneas e, portanto, para produzir a partir deles um juízo estético, que permitiria determinar se estamos diante de uma obra de arte ou de uma mistificação.

Em vários de seus textos, Danto considera isso e propõe uma estética analítica que não visa mais definir a arte, porém estabelecer como o observador se coloca em relação ao objeto artístico, àquela operação na linguagem. Direi que hoje pode-se problematizar não mais segundo uma interpretação da arte nos moldes de sua relação com o “real” e o “senso comum” e, tampouco, da linguagem nos moldes da linguística, de sua relação com o abstrato. No entanto, a alternativa do artista nos oferece imagens em que a oposição entre essas duas vertentes, deixa de fazer sentido para se ter uma experiência do que possa vir a ser a arte.

Se eu puder resumir todo esse bla-bla-blá acadêmico, direi a você, leitor, que, hoje, estaria colocado o problema da relação com as imagens naquilo que elas possuem muito mais como processo do que como significado: não interessa mais interpretar, “entender” ou fazer “leituras” de uma obra artística. Portanto, em meio à enxurrada de imagens do contemporâneo, cabe a percepção de singularidades ou questões oferecidas: por um lado, a partir da cultura; por outro, da linguagem, sempre interrogando os limites do que se convenciona chamar o dispositivo artístico, o famigerado cubo branco, em suma, a arte pictórica e as artes plásticas de um ponto de vista tradicional.

Assim, proponho pensar alguns problemas a partir de breves notas sobre a exposição Ancer, desse artista arrojado que é Cláudio Costa.

Na entrada, a recepção é feita por grandes tecidos com o que aparenta ser pinturas abstratas. A exposição é dividida em “Bestiário”, “Arcabouços” e “Nódoa”. De uma forma geral, traz os mais variados materiais: tecidos, madeira, cisal, objetos de palha etc. A pintura dos tecidos e o tom dessas peças exploram o contrário do que somos orientados desde criança para evitar manchar uma roupa. Assim, Cláudio Costa quer as nódoas do mangue, as manchas que pode gerar. O artista “mancha” os tecidos com pigmentos advindos dos mais diversos lugares, os mesmos que nos remetem ao contato, tornado impossível em nossos dias, com a natureza.

Tem-se diante dos olhos formas informes, arte figurativa e abstrata, a armação com um tecido tingido que sugere um morcego, tipos impressos em madeira apagada e, mais adiante, uma rosa de metal. Há instalações montadas com cabeças de animais mortos e, noutra peça, asas numa peruca formam uma figura fantasmagórica, que a instalação isola com um mosquiteiro para conjurar o movimento.

Cláudio Costa inverte nossa maneira habitual de enxergar os objetos. Se a rede normalmente nos convida à tranquilidade, à preguiça e ao descanso merecido, em Ancer, aparece fechada com estacas de madeira. Transforma-se em um objeto de tortura: ou um objeto onírico? Um objeto traumático? E que lembranças são essas da natureza ou de um tempo de tranquilidade que, parece, nós perdemos?

A exposição segue opondo: cultura versus natureza; figurativo versus abstrato (embora, para mim, não se trate nem de um, nem do outro); morte versus loucura.

O pigmento do mangue e a mistura com a lama conferem às peças um tom sépia, sombrio e envelhecido, como se elas fizessem parte de uma paisagem devastada, de uma paisagem de morte, em que a natureza se perdeu: ela não passa de uma natureza morta, lembrando também a Vanitas em pintura.

Digno de nota, o belo vídeo de Beto Matuck completamente silencioso, sem diálogos, traz visualidade ao júbilo do artista em seu processo de criação, no que aparenta ser a região dos Lençóis Maranhenses. No vídeo curto, Arcabouços, dá ideia do movimento que se contrapõe ao espaço de devastação: de um lado, grandes objetos enferrujados; do outro, o artista ergue ao vento um tecido amarelo. É uma paisagem distópica que se apresenta na exposição, para nos remeter a Tarkóvski, o cineasta de Stalker. Já pensou um filme cenografado por Cláudio?

A atmosfera de morte, na qual a velha senhora domina todo o espaço que um dia foi da natureza, leva a pensar uma contraposição. Os tipos impressos em madeira ou as impressões aleatórias nos tecidos já não querem dizer mais de um estado figurativo ou de algo que possa ancorar algum sentido: o não-sentido é o que assoma diante do olhar. O não-sentido é o terreno do horror, mas também da loucura, lembrando que a esquizofrenia é artisticamente uma forma de resistência a uma situação traumática ou de desastre, uma situação em que o sujeito já não se encontra configurado com os astros.

Nesse sentido, Cláudio nos convida a resistir em meio a uma experiência contemporânea: entre a morte e a loucura, quem vencerá? Diga-nos, leitor, mas vá logo, porque a exposição encerra no próximo dia 20.